Artigo escrito pelo Prof. Pinheiro em 15 de abril de 1997, mas ainda atualísssimo.
* Luiz Carlos Pinheiro Machado
Um grupo de antropólogos e historiadores, coordenados pelo prof. Rafael José de Menezes Bastos, publicou, em 1993, uma coletánca de ensaios que analisa as raízes da farra do boi.
Não é minha intenção entrar nessa análise, até porque, em um país historicamente espoliado como o Brasil, considero perigoso usar o respeito às culturas, pura e simplesmente. Por exemplo, isso poderia levar à defesa da exclusão social da mulher em nome da "cultura machista latina", além de muitos outros exemplos que esquecem ser a "cultura" uma categoria influenciada por inúmeros fatores sendo, por isso mesmo, dinâmica. Ou o machismo não é um traço cultural nosso? Registre-se também, não nos autores citados, mas na historiografia em geral, a ausência de preocupação em cultuar os grandes valores de nossa história, a ponto de se perguntar em uma sala de aula da Universidade, que vultos de nossa história são paradigmas e os alunos entreolharem-se surpresos, sem saber o que responder. Mas, respondem, prontamente, quando se pergunta por um vulto da história norte-americana...
Pode parecer que um assunto nada tem a ver com o outro. Mas tem. É que, quando se alimenta um ato de barbárie, se está dando vazão a sentimentos reprimidos por todo um sistema perverso que estimula a violência como uma forma de desviar, sobretudo os jovens, de suas normais tendências de revolta contra as injustiças. Não é por acaso que os " fornecedores" do boi são, muitas vezes, políticos conservadores.
Referindo-se á farra, diz a descendente de açorianos, profª. Magaly Mendonça: "Creio que, mais uma vez. houve uma deterioração dos costumes, uma deturpação da cultura". Difícil fazer-se melhor síntese.
Mas, vamos ao objeto principal deste comentário, que é analisar a farra do boi sob a ótica da vitima, o boi. Já em 1965, o Comité Brambell, reunido em Londres, afirmou que os animais mostram sinais inequívocos que sentem "dor, angústia, medo, frustração, raiva e outras emoções”, ao que o renomado cientista A.F. Fraser acrescentou "negar que os animais têm sentimentos e emoções, hoje, seria cientificamente desonesto".
O respeito aos direitos dos animais e atendimento às necessidades do bem estar animal são condutas consagradas em todos os foros civilizados do mundo. Em 27 de janeiro de 1979, a UNESCO proclamou os "Direitos dos animais” de onde se excerta do preâmbulo: “considerando que o respeito pelos animais por parte do homem, está ligado ao respeito dos homens entre si; Art, 2°-a) - Cada animal tem o direito ao respeito... c) - Cada animal tem o direito à consideração, à cura e à proteçào humana. ... Art. 3°- a) - Nenhum animal deverá ser submetido a maus tratos e a atos cruéis. ... Art. 10 - nenhum animal deve ser usado para o divertimento do homem . . Art. 11 O ato que leva à morte um animal, sem necessidade é um biocídio, ou seja, um delito contra a vida".
Em 1981, inauguramos na UFSC,a primeiro disciplina de Etologia aplicada à Zootecnia da América Latina. Desde então, temos discutido com estudantes, professores e integrantes da comunidade que admitem a farra como um traço cultural, quais as diverssas reações emocionais estressoras sofridas pelo boi: Ou seja, tentar analisar o massacre, a partir do que sente o massacrado.
O ritual da farra começa com uma primeira violência: arrancar o animal de seu convívio, de seu território, em jargão etológico, jogando-o em um caminhão com carroceria com laterais gradeadas que provoca a tontura no bovino. O transporte até o local da farra, geralmente é feito com sucessivos maus tratos. Na chegada uma multidão o espera aos gritos, foguetório e algazarra. Intensifica-se o estresse. Segue-se a farra, quando o boi é solto, e torturado até que se exangue ou morra. Que diferença essencial existe entre esse ritual bárbaro e uma tortura humana?
Os animais, e o boi também, têm sentimentos, emoções, frustrações, dor, alegria. Portanto, quando o boi sofre as agressões da farra, suas reações e sofrimentos são equivalentes ao sofrimento humano, se submetidos à mesma barbárie.
Nenhum motivo justifica a violência contra um animal indefeso, quanto mais quando a violência é covarde e perversa. Covarde porque nenhum farrista enfretaria o boi a sós, no campo, no seu território, e perversa porque não há qualquer motivo humanitário para as violências e sofrimentos que são perpetrados contra um animal indefeso.
Não se confunda o respeito e o culto ás tradições e aos valores culturais, ambos absolutamente indispensáveis à formação da cidadania brasileira, com atos de barbárie que desviam e manipulam os justificados sentimentos de revolta da população.
* Professor titular do Depto. de Zootecnia da UFSC
Criador da da 1ª disciplina de Tologia na América Latina, na UFSC em 1981