Especialista em saúde pública diz que eutanásia em cães não protege humanos
09 de maio de 2010
Asevidências científicas que preconizam a eutanásia em cães como forma deproteger os homens da leishmaniose visceral são frágeis e ambíguas, naopinião do médico e especialista em saúde pública tropical CarlosHenrique Nery Costa. De acordo com ele, a estratégia de eliminar cãesnão tem nenhum impacto sobre a saúde humana.
“Nãoadianta matar (cães) porque as pessoas não vão ter menos Calazar(leishmaniose). Até compreendo a “boa intenção” do Ministério da Saúde(MS), mas não é ciência. O volume de contaminações não seria maior semas eutanásias. Não existe uma única evidência de que tirar a vida de umcachorro protege as pessoas. Não tem nenhuma eficácia”, diz o médico.Até há cinco anos, ele era consultor do próprio MS para o programa decontrole de leishmaniose.
Doutor emSaúde Pública Tropical pela Harvard University, ele atualmente éprofessor da Universidade Federal do Piauí, médico do Governo do Estadodo Piauí e Coordenador Executivo da Rede Nordeste de Biotecnologia.Costa foi indicado como referência por vários membros de entidades deproteção animal de Bauru. Ele explica que a ideia da eutanásia começouhá mais de seis décadas com um famoso cientista israelense (Adler).
“Eletratou alguns cães na Palestina com as medicações disponíveis na épocae não curou. Concluiu que o melhor jeito de controlar a doença eramatar os bichinhos. Logo em seguida, começou o regime comunista naChina, onde a situação era deplorável do ponto de vista geral,inclusive de Calazar (leishmaniose). Decidiram então atacar o Calazar”,informa. Na época, trabalharam em três frentes: trataram em massa aspessoas, mataram cães em algumas áreas e usaram inseticidaextensivamente.
O DDT era utilizadonas paredes das casas, informa o médico. O país contava na ocasião comdois tipos de leishmaniose visceral. A zoonótica (que atinge homens eanimais – trata-se da encontrada no Brasil) e a antroponótica (sóinfecta seres humanos). “Quando começaram esse programa quase acabaramcom o Calazar, mas principalmente nas áreas de transmissão entrepessoas. O Calazar Zoonótico continua na China. Mas foi concluído quematar cachorro também era eficiente”, acrescenta.
Jáno Brasil, a história das eutanásias começa com o cientista JoaquimEduardo Alencar, no Ceará, explica o médico do Piauí. “Diante da grandequantidade de casos, ele começou a matar cães. Mas tem até um trabalhodele mostrando que nos distritos onde só fez matar cães, a doençacontinuou igual, até piorou um pouquinho. Mas nos municípios onde eleusou DDT, diminuiu bastante”, destaca.
Doponto de vista teórico, com base em modelagem matemática, o elo maisfrágil da transmissão da doença é o inseto, não o cão (reservatório),enfatiza. “Porém, os inseticidas atuais, do modo como são utilizados,parece que não são eficientes. O que devemos reavaliar, voltar aestudar é o DDT, que é objeto de muita controvérsia”, conclui.
OMinistério da Saúde não segue as normas internacionais de consulta àcomunidade científica, segundo o especialista em saúde pública tropicalCarlos Henrique Nery Costa. De acordo com ele, qualquer recomendaçãoconcernente à saúde pública deve ter fundamentos científicos, conformeconsta no Código Sanitário Internacional.
Paradispor de evidências científicas, o MS deveria encomendar oficialmenteum texto de especialistas tanto no assunto quanto em revisãosistemática. “Ele (o especialista) escreve o texto e faz uma avaliaçãoidônea, não enviesada da literatura. Feita a revisão, apresenta a umcomitê de pessoas que lida na área e, então, é retirada uma conclusão.Se a medida deve ser tomada ou não”, explica.
Jáo que foi feito em outubro do ano passado foi uma revisãobibliográfica, pondera o médico. Na ocasião, foram analisadosperiódicos científicos de circulação nacional e internacional, sendoque a conclusão reiterou a proibição do tratamento canino no País e aindicação de eutanásia para cães infectados. Segundo o texto elaboradopelo governo federal, os modelos de tratamento propostos atualmentepodem levar a uma melhoria transitória do quadro clínico do cão,reduzindo os níveis de parasitas.
“Revisãosistemática é outra coisa. A redação tem uma série de critérios eexigências. Aquilo foi uma revisão bibliográfica que você pode fazercom quem você quiser. Como é comum que os autores tenham uma opiniãoformada anteriormente, portanto tenham uma afinidade maior com certasreferências, a revisão bibliográfica simples não atende às exigênciasde uma representação idônea do pensamento científico”, finaliza.
Apossibilidade de existirem outros transmissores da leishmaniose, alémdo ‘mosquito palha’, tem sido aventada por alguns especialistas. Deacordo com Carlos Henrique Nery Costa, existem alguns estudos quetambém apontam como vetores um carrapato e outro inseto parecido com o‘palha’.
“O que é cientificamenteestabelecido, acordado, é o ‘mosquito palha’. Mas é possível sim quehaja transmissão direta entre cães. Como um cão lambendo o outro,mordendo o outro, tendo relações sexuais. É possível, mas não sabemos aexpansão disso. A pergunta que se coloca é a seguinte: de onde vêm osparasitas que infectam os insetos? Nos seres humanos, provavelmente dosangue. Já dos cães não temos certeza. Pode ser da pele, que estádoente, como pode ser do sangue também”, afirma.
Costadiz não ter nada a favor especialmente dos cães. Mas acredita tratar-sede um animal que merece respeito e humanidade. “Não pode ser submetidoa nada que ameace sua vida. Os cães não são seres moralmenteinsignificantes”, pondera.
Fonte: Jornal da Cidade